A Prisioneira das Sombras








O ar congelava o meu rosto. O véu negro que cobria parte da minha cabeça ficava sendo puxado pelo vento. As mãos invisíveis e fortes que surravam com sua doçura e castigo.
Segurava no braço de Iramaia enquanto Thomas perambulava do outro lado da sepultura apoiado no pequeno caixão. O rumo daquela vida indiferenciada pelo destino já selado por alguma mão divina.
Numa noite fria eu senti a real dor de uma mãe. As punhaladas dadas de alguma forma em seu corpo que atravessaram o meu.
O rosto de Iramaia que antes sorria pelas nossas brincadeiras de infância agora, tremia pela amargura e seu desassossego fazia-a estremecer pela perda. Aquela dor consternada, ardilosa, áspera que penetrava na alma e desolava todo o corpo. Suas luvas negras rendadas e molhadas pela chuva. Ela segurava as lágrimas tentando conter sua sanha, sua raiva de desmerecê-la a vida por ser mãe.
Nenhuma pessoa ali presente conseguiria entender a nossa dor. Por mais que tentassem.
O lindo caixão de pinho estava sendo levado para um novo lar. Descendo o fundo da terra. Sendo pressionado pelas forças de Gaia. Oscilo em minhas pernas e tento me equilibrar e segura-la para dividir do meu guarda-chuva que tentava segurar as forças das cortinas finas de águas que deslizava pelos sulcos do chão.
A melodia de canções desconhecidas cogitava em minha mente em câmara lenta enquanto o padre falava as últimas frases de agradecimento e despedida. Ouço apenas. — Que Deus receba mais esse pequenino em seu lar hoje.


(Memórias de Anahí Muruá)
Do Romance A Prisioneira das Sombras 

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