Ruptura






A sensação não pareceu confortável, semelhava angustiante, medidora, aterradora. Senti uma enorme fenda que se abriu diante de mim sem conseguir alterar o comando de tudo que eu via e que sentia tão bravamente.

Gabriel vinha com a devida permissão e recolhia as almas que tinham iniciado o processo da morte, mas havia àquelas nas quais Ele não podia levar. Uma dor se apossou dentro de mim, então compreendi a recusa de ter que levá-los.

Um mestre estava a frente de todas as pessoas do mundo e minha alma conseguia comungar com aquele homem. Ele dizia tudo sobre os mistérios da vida e do último suspiro, nas quais eu não poderia revelar. Uma instrução de que isso, era algo na qual cada um deve buscar. Durante os seus ensinamentos, ele dizia que vivemos num plano materialista e fora do termo pacífico, onde experimentar da dor, andar sob as chamas do fogo de nosso próprio inferno, perder um bem precioso são lições primorosas e não uma ofensa, ou uma maldade a nós.

Esta, é a nossa forma de aprendizado e se recusar seria desistir da vida, estilhaçar a nossa alma de todas as verdades. O paraíso se encontra no meio de cada inferno pessoal, mas ser perseverante, suportar o calor das brasas, chorar e se levantar, não desistir é o caminho que seguimos ao nosso paraíso, é nos dar a chance da existência, é a caminhada da nossa purificação, porque a vida é um presente, a continuação das missões inacabadas.

Quando um ciclo preenche o seu contorno, um novo círculo é reconstruído, porém, outro processo se inicia, mas, esse processo é complexo, um termo de expiação onde o friso de luz que se espargiu do círculo anterior é transferido ao novo círculo deixando a cor negra predominar o antecessor. O imenso cordão de prata que nos seguiu por toda a vida se rompe com o último suspiro assim somos empurrados para fora deixando o sopro de ar. Num segundo da eternidade, Gabriel se curva levando para a sua origem aquela fagulha de energia chamada alma e num estado de graça conduz a passagem daquele peregrino.

A tristeza continuava a assolar em meu peito, porque eu queria entender sobre as almas que não eram levadas. Estes, tinham desistido de sua própria vida, desistido da fé cósmica e decidiram por si só a sua própria existência ou partida. O enorme cinturão de Daath permanece sempre a nossa frente deixando a nossa escolha o livre arbítrio. Está em nossas mãos viver ou morrer, porém, das tarefas celestiais cabe aos seres celestiais, e por motivo maior na minha angústia a compreensão dos que assim partem esperam até que a terra seja fértil o suficiente juntar em sua época os seus estilhaços e quando todas as partes novamente se unirem nascem para que recebam da vida não só terrena, mas espiritual uma nova chance.

Gabriel tem a permissão de levar a energia ectoplasma inteira, mas, não tem a permissão de juntar os pedaços. Ele se prostra para todos nós humanos, pequenos e que no tempo estabelecido por Deus partem. Mas, mesmo com o sofrimento que senti que carregam em seu coração nada pode fazer pelos que desistem.

Todos somos noivos da vida e o rito de passagem se completa no dia de nossa justa partida. Evoluir dói, renascer também, mas somos seres adaptáveis, fortes e bélicos por nascença. A fé é transportar montanhas, não é morrer, é nascer em outras culturas, até ser personagem alma, alguém que contribuiu não só para si, mas, para o outro o bem de ambos.


 

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